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Políticas Públicas e Economia

Notícias - Políticas Públicas e Economia

Quando o micro chegar ao macro

A análise da formação e importância da taxa cambial para o crescimento econômico, e a construção de um sistema produtivo sofisticado e capaz de absorver a mão de obra que estará disponível, num país que em dez anos terá 220 milhões de habitantes, divide fortemente os economistas. Alguns crêem (é "crença" de ter fé, como Santo Agostinho que "acreditava exatamente por ser impossível") que o sistema econômico é regulado por leis naturais através do sistema de "mercados". Deixados inteiramente livres, a "mão invisível" que os coordena (na qual nem Adam Smith acreditava muito...) produzirá uma organização eficiente do sistema produtivo, que num tempo finito, mas não especificado, acabará no melhor dos mundos: o máximo crescimento possível, a maior e melhor utilização possível da mão de obra, equilíbrio interno (que depende da responsabilidade fiscal do governo na geração dos "bens públicos" que só ele pode suprir), equilíbrio externo e, como bônus, redução das desigualdades.

 

Outros têm dúvidas sobre tal resultado. Como o cético São Tomé, não crêem no que não podem ver e apalpar ou o que a história até agora não revelou. O que os incomoda é a idéia que tudo será realizado num tempo "finito", mas não identificado. Temem que a proposição do velho sr. Maynard, segundo o qual "no longo prazo estaremos todos mortos", pode aplicar-se a eles. Ir-se-ão desta para a melhor, antes que vejam chegar o tempo "finito". Mesmo acreditando de forma discreta na capacidade de auto-organização do sistema produtivo através dos incentivos que os mercados oferecem, têm muita dúvida que o equilíbrio esperado se realize antes de um tempo "infinito". Mas isso transforma toda a "ciência" em "metafísica" e os carrega para outro quadrante.

 

Olhando as narrativas que a história registrou, os céticos acreditam ver que nenhum dos países hoje desenvolvidos, e muito menos os EUA, foram produzidos por aquele liberalismo econômico "idealizado". Pelo contrário, na produção do conhecimento, da tecnologia, da ciência e da inovação, que são os verdadeiros motores do desenvolvimento, o papel do Estado foi tão importante (às vezes por motivos bélicos), quanto o de manter boas instituições.

 

O que é grave é que não há possibilidade de um diálogo entre os dois grupos enquanto não for demonstrada (o que parece improvável) a superioridade de um deles na base do "quod erat demonstrandum" do desenrolar histórico, e não da teoria social contrabandeada com passaporte matemático. Como diz o velho ditado, "quem é convencido contra suas crenças continua com a mesma opinião". Um fato interessante é que essas opiniões criaram um pensamento "único", que gestou as políticas econômicas na segunda metade do século XX: a "keynesiana", que predominou entre o fim da Segunda Guerra e o início dos anos 80. Ela produziu os "30 anos gloriosos" e o "Welfare State" que, como todos sabemos, terminou mal e foi substituída por outro pensamento único, o "neoliberal".

 

Na "nova ordem", os países anglo-saxões libertaram-se mais depressa do peso do "Welfare State" e voltaram a crescer. Os europeus tiveram maiores dificuldades políticas e estagnaram. Só agora (a começar pela Alemanha) entenderam que a volta ao crescimento implica uma ênfase maior na política de oferta (sem descuidar do estímulo da procura), o que, lamentavelmente, parece implicar, também e concomitantemente, aumento da desigualdade, como já aconteceu. Mais dia menos dia, o eleitor "mediano", através das urnas, imporá restrições aos exageros da política "neoliberal" derivada do pensamento único que hoje domina o mundo.

 

As economias desenvolvidas representam hoje menos da metade da economia mundial e cresceram 3,1% em 2006 (2,6% esperado para 2007). O forte crescimento atual é comandado pelas economias emergentes, que cresceram 8,1% em 2006 (8% esperado para 2007). Nelas, são claros dois movimentos: 1) a grande ênfase na política de oferta apoiada na ampliação do comércio; 2) rápido aumento das exportações (para prover a demanda interna) e pagar as importações portadoras de matérias-primas, bens de capital e tecnologia.

 

No mundo emergente, o Brasil não tem se saído muito bem, como revela sua taxa de crescimento: 3,7% em 2006 e, provavelmente, em torno de 5% em 2007 (60% do crescimento dos outros emergentes!).

 

A despeito de todo o entusiasmo com nossas exportações (fortemente beneficiadas pelos aumentos de preços e pela expansão econômica dos outros), elas continuam a representar apenas 1,2% do total mundial, quando em 1984/85 representavam 1,4% e eram iguais às da China e da Coréia, que hoje se encontram, respectivamente, nos níveis de 8,1% e 2,7% do comércio mundial. Isso foi o resultado das péssimas políticas que impusemos ao país nos últimos 22 anos, com exceção da iniciada em 1999 e terminada em 2004, quando, infelizmente, voltamos a utilizar oportunisticamente o câmbio para reduzir a taxa de inflação.

 

Os países de mais rápido crescimento, como a China (11,1% em 2006 e 11,2% em 2007) e a Índia (9,7% em 2006 e 9% em 2007), que cresceram quase três vezes mais do que o Brasil em 2006 e crescerão o dobro em 2007, esqueceram a "boa teoria neoliberal" em matéria de câmbio e optaram pelo pragmatismo responsável. Quando os efeitos deletérios da "supervalorização" do real no nível microeconômico forem visíveis no nível macro, vamos nos arrepender mais uma vez e será tarde, como de costume...

 


Artigo de Antonio Delfim Netto, professor emérito da FEA-USP e ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento

 

(Fonte: Valor Econômico)

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