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Indústria farmacêutica: inovação no final de um difícil trajeto   05/01/2010

  Desenvolvimento de produtos passa a contar com mais recursos oficiais, mas burocracia e garantias dificultam o processo. Em 2008, balança comercial foi deficitária em US$ 2,1 bilhões

"O Brasil não tem tradição em pesquisa, desenvolvimento e inovação, sobretudo nas indústrias farmacêutica e bioquímica." A afirmação é de Ogari Pacheco, que comanda o laboratório Cristália, uma das empresas mais inovadoras do País. Esse reconhecimento vem da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), que em duas edições seguidas, em 2007 e em 2008, concedeu a medalha de ouro nesse quesito à empresa de grande porte. Em 2009, a Cristália garantiu o segundo lugar em premiação idêntica do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) e na Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica (Protec).

 

Criado em 1972 por um grupo de médicos, em Itapira, no interior de São Paulo, o laboratório hoje atua em todos os elos da cadeia produtiva, com uma planta de farmoquímicos para abastecer sua indústria farmacêutica. Sempre com foco em pesquisa, desenvolvimento e inovação (P&D&I). Pacheco celebra a decisão recente do governo de garantir a demanda por produtos inovadores. "O governo decidiu exercer o poder de compra do Estado com as parcerias público-privadas para garantir condições efetivas de produção nas áreas farmoquímica e farmacêutica." Por outro lado, ele aponta a carência de tomadores dos financiamentos oferecidos pela Finep e pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Ou seja, faltam projetos, enquanto o País importa cerca de 95% do seu consumo de princípios ativos, que as multinacionais trazem da matriz. O Cristália tem sua própria cadeia integrada e fabrica mais de um terço do próprio consumo desses insumos.

 

O laboratório iniciou suas atividades na área de psiquiatria, fornecendo medicamentos para clínicas, hospitais e, principalmente, governo. Agora pretende estrear no segmento de biotecnologia, construindo uma fábrica para produzir dois medicamentos similares: o hormônio de crescimento humano e o Interferon, usado no tratamento de doenças virais. Investiu R$ 20 milhões no projeto, que poderá consumir outros R$ 25 milhões para iniciar a produção até 2012. Nenhum desses medicamentos, que não têm proteção de patentes, é fabricado no Brasil. Mas representam um ônus de R$ 120 milhões aos cofres públicos. A meta do laboratório é suprir metade da demanda local com a produção de ambos. Com outros dez projetos em biotecnologia, a empresa colheu frutos dos investimentos anuais de 7% a 8% do faturamento em P&D&I.

 

No caso de novas moléculas, a vitória foi ter um composto totalmente desenvolvido por ela com a denominação lodenafil carbonado (carbonato de lodenafila) aprovado pelo lnternational Nonproprietary Name (INN), que é adotado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Com isso, passou a ser usado em todo o mundo para designar os princípios ativos de medicamentos. O composto, de nome comercial Helleva, utilizado em casos de disfunção erétil, coroou a decisão da empresa, ainda em 1988, de investir na síntese de princípios ativos. Até 2007, segundo Pacheco, o laboratório tinha 12 patentes registradas no País e no exterior (Estados Unidos, União Europeia, China) e cerca de outros 60 pedidos apresentados aos órgãos competentes. Com faturamento em torno de R$ 600 milhões, o Cristália, que deu seus primeiros passos no mercado internacional em 1982, hoje exporta para cerca de 40 países da América Latina, Ásia e Oriente Médio. A principal área de negócios da empresa é a linha de anestésicos. "Somos líderes no fornecimento de produtos anestésicos na América Latina, seja no modo endovenoso, inalatório ou de bloqueio (ráquiperidural)", afirma. No 56° Congresso Brasileiro de Anestesiologia, realizado em novembro em Salvador (BA), o Cristália lançou um anestésico endovenoso por nanoemulsão, o Propovan. E a produção do coquetel antiaids da empresa é vertical - além do que abastece de fármacos tanto Farmanguinhos como o Laboratório Federal de Pernambuco (Lafepe).

 

O Cristália não está sozinho em P&D, como mostra pesquisa da Federação Brasileira da Indústria Farmacêutica (Febrafarma), realizada no primeiro semestre de 2008: os investimentos das empresas nacionais em P&D cresceram 68%, enquanto os das multinacionais aumentaram 11%. A entidade, que reunia os sindicatos brasileiros de fabricantes de medicamentos, deixou de existir em agosto. Uma das formas de investir em P&D é fazer parcerias entre empresas ou entre estas e instituições. Foi a iniciativa tomada, no início deste ano, por duas indústrias nacionais para transformar ideias inovadoras em produtos ou plataformas tecnológicas.

 

Nascida na incubadora da Universidade de São Paulo (USP), a empresa Incrementha foi criada com dinheiro e apoio jurídica, regulatório e administrativo dos laboratórios Biolab e Eurofarma. Com três anos de vida, a empresa deve entregar os primeiros produtos ao mercado em 2010. Abertas a ideias externas, empresas como a Incrementha acreditam que podem desenvolver inovações melhores, mais baratas e em menos tempo. Isso porque, entre outros motivos, são ágeis e não ficam subordinadas às pesadas estruturas de uma grande companhia. Além de sua proximidade com universidades e centros de pesquisa, celeiros de conhecimento, a Incrementha tem acordo com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul para desenvolvimento de produtos com nanotecnologia. Em 2008, Biolab e Eurofarma investiram R$ 7 milhões na empresa, e devem investir outros R$ 8,5 milhões neste ano.

 

No caso dos cristais de insulina, a Biomm, empresa brasileira que ficou com parte dos ativos da Biobrás - patentes para a produção do princípio ativo dos insumos - vai transferir à brasileira União Química a tecnologia de produção dos cristais. Essa empresa planeja investir cerca de R$ 150 milhões em uma nova unidade, que aproveitará a infraestrutura da recém-inaugurada fábrica do laboratório, no distrito industrial JK, em Brasília (DF). A expectativa é que a produção dos cristais e da insulina formulada comece em até três anos. É quando o mercado público de insulina deixará de depender apenas do Novo Nordisk-Eli Lilly. A União Química fechou 2008 com vendas de R$ 343 milhões, segundo dados da IMS Health, 20% a mais do que no ano anterior.

 




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