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Gripe suína dá novo estímulo à indústria farmacêutica   01/07/2009

  Farmacêuticas aumentam a produção de medicamentos e ampliam investimentos em P&D de olho na gripe A(H1N1). O foco é a produção de uma vacina para erradicar a doença

Quando a Organização Mundial da Saúde anunciou, no dia 11 de junho, que a gripe suína havia atingido o status de pandemia, com 29 700 casos e 145 mortes pela doença registrados em 74 países, uma poderosa engrenagem começou a se mover. Indústrias farmacêuticas espalhadas por todo o mundo deram largada à corrida para produzir a vacina contra o vírus da gripe A(H1N1) - como a doença é conhecida entre os cientistas. Horas após o comunicado da OMS, a suíça Novartis anunciou a produção de um primeiro lote da vacina, tomando a dianteira no processo. Estima-se que em três meses, no máximo, a droga para a prevenção da doença esteja disponível em grande escala.

 

"Destinaremos o máximo de nossa estrutura para que isso aconteça em tempo recorde", afirmou a Albert Garcia, médico epidemiologista da Sanofi-Aventis, maior fabricante de vacinas contra gripe do mundo e dona de 40% do mercado global. O mesmo esforço será repetido por seus pares da indústria farmacêutica. Reunidos, os grandes laboratórios são capazes hoje de produzir perto de 500 milhões de doses por ano de vacinas antigripe. Com a pandemia, esse volume pode chegar a 900 milhões de doses. Há apenas cinco anos, essa capacidade era de 260 milhões de doses.

Tal expansão é função direta da lição aprendida com a gripe aviária, em 2004. Na época, a indústria farmacêutica se deu conta de que não teria condições de produzir uma vacina com a rapidez e a qualidade necessárias caso a doença se espalhasse em proporções epidêmicas. Os grandes laboratórios resolveram, então, investir na produção de vacinas.

 

A Federação Internacional da Indústria Farmacêutica (IFPMA, na sigla em inglês) estima que, desde então, os fabricantes de medicamentos aplicaram cerca de US$ 4 bilhões na área de vacinas, isso sem contar a ajuda de governos. "Além de ampliar os laboratórios, as indústrias investiram em pesquisa e desenvolvimento para que possam tirar o máximo de proveito de suas estruturas caso precisem aumentar a produção", disse Guy Willis, diretor da IFPMA. Apenas a Sanofi-Aventis investiu US$ 1,4 bilhão desde 2004, quando começou a desenvolver a vacina contra a gripe aviária.

 

Três novas fábricas de vacinas foram construídas - na China, no México e nos Estados Unidos. A GlaxoSmithKline (GSK), outro grande fabricante, também ampliou sua estrutura. De uma única fábrica na Bélgica, há cinco anos, a área de vacinas da empresa, chamada GSK Biologicals, passou a ter nove unidades, espalhadas entre América do Norte, Ásia e Europa.

Negócio promissor

Evidentemente, os laboratórios viram uma grande oportunidade de negócio com a produção de vacinas. Apesar de existirem drogas eficientes para o tratamento de gripes como a aviária e a suína - antivirais como o Relenza, da própria GSK, e o Tamiflu, produzido pela Roche -, as vacinações em larga escala ainda são a forma mais barata e eficaz de erradicar doenças. E os principais clientes em uma situação desse tipo, governos de todo o mundo, preferem esse mecanismo.

 

No caso da gripe suína, departamentos de saúde de diversos países já encomendaram as novas vacinas, antes mesmo de elas chegarem ao mercado. A GSK, por exemplo, recebeu pedidos do Reino Unido, da França e da Bélgica, entre outros, num total de aproximadamente 120 milhões de dólares. A Novartis, outra líder global, com 20% da produção de vacinas contra gripe comum, recebeu investimento de 289 milhões de dólares do Departamento de Saúde dos Estados Unidos para desenvolver a vacina.

 

O setor, como um todo, vive um boom. Estimativas das indústrias farmacêuticas indicam que a demanda por vacinas no mundo deve dobrar até 2016, e grandes empresas farmacêuticas - como GSK e Sanofi-Aventis - preveem que, até 2012, cerca de 10% de seu faturamento virá de vacinas. Em 2006, esse volume não passava de 8%.

Desenvolvidas pela primeira vez em 1796 pelo médico britânico Edward Jenner, as vacinas são produzidas hoje com o mesmo princípio usado para combater a varíola no final do século 18. Desde então, houve avanços cruciais. Nos anos de 1918 e 1919, auge da gripe espanhola, não era possível a produção de uma vacina contra a doença. Naquele momento, a ciência tinha dificuldades para isolar o vírus influenza e também para manipulá-lo. A primeira vacina contra a gripe foi criada apenas em 1931. Mas de lá para cá novas técnicas surgiram.

 

 A principal delas isola e identifica não apenas o vírus específico causador da gripe mas também suas principais mutações. Essas amostras servem de base para a produção dos antígenos, substâncias que são inoculadas nos seres humanos e estimulam o organismo a produzir anticorpos contra o vírus original. Assim, quando ocorre o contágio, o organismo é capaz de destruir o vírus. "Estamos mais preparados hoje do que em qualquer outro momento da história", disse a diretora-geral da OMS, Margaret Chan, em uma conferência recente.

 

Medicamentos

 

Enquanto a vacina não chega ao mercado mundial, as empresas farmacêuticas procuram aumentar a produção de medicamentos que ajudam no combate à doença. Um exemplo é a Roche que está se preparando para aumentar a fabricação do Tamiflu, utilizado para combater a gripe aviária e que também pode ser utilizado contra o H1N1, causador da nova variação de gripe.

 

De acordo com a Roche, serão produzidos mais de 110 milhões de kits de tratamentos. A previsão do laboratório é de que consiga entregar cerca de 36 milhões de kits por mês até o final do ano. No Brasil, a Farmanguinhos, divisão de produção de fármacos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), ainda não tem previsão de aumento de produção do genérico do Tamiflu, o Oseltamivir. Segundo a assessoria de imprensa da fundação, há capacidade para aumentar a produção do antiviral que tem "eficácia comprovada contra o vírus da gripe A, o H1N1, mas para começar a produzi-lo depende de um pedido formal do Ministério da Saúde", ação ainda não tomada pelo governo. Quanto à vacina a fundação não vê nenhuma ação nesse sentido nos próximos seis a oito meses na unidade de vacinas a Biomanguinhos.

 

Mas, um dos temores das indústrias farmacêuticas foi confirmado na Dinamarca. Um paciente com o H1N1 apresentou resistência ao Tamiflu.

 

 

(Fonte: Exame - 25/06/2009 e DCI - 30/06/2009)

 

 

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