| | Em entrevista, presidente da Abinee critica o pouco controle do capital especulativo e afirma que a valorização excessiva do Real contribui para a desindustrialização do setor
O empresariado brasileiro está preocupado com a desindustrialização nacional estimulada pelo aumento das importações de produtos acabados. O câmbio é visto como o vilão da vez e a valorização do real é um problema que o Governo tem que resolver com urgência. O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Elétrica e Eletrônica (Abinee), Humberto Barbato, crê que o Governo deve tomar medidas, como uma taxação maior do capital especulativo aplicado no Brasil durante período menor do que um ano.
Barbato, que é diretor de Relações Institucionais da Cerâmica Santa Terezinha, em Pedreira, considera que a situação do câmbio auxilia parte dos segmentos ligados ao setor, como a área de informática, que barateia preços no mercado interno. Mas prejudica muito a base industrial de ramos como utilidades domésticas, que perde espaço para os importados. O administrador de 54 anos, que fabrica isoladores cerâmicos, vê uma oportunidade ímpar, com as eleições deste ano, para exigir compromissos dos candidatos para o setor industrial. Leia abaixo a entrevista de Barbato:
Qual foi o impacto da crise econômica sobre a indústria de elétrica e eletrônica?
Humberto Barbato: No ano passado, nós sentimos um impacto muito forte. A queda do faturamento em relação a 2008 foi de 9%. Esse é um dado muito importante. Nossa expectativa é de que este ano nós consigamos chegar aos números de 2008. O ano de 2010 é da retomada. Isso significa dizer que, realmente, 2009 foi um ano que impactou, principalmente no primeiro semestre, a produção e as vendas do setor. No mês de maio, começou a reação e o primeiro indicador foi o aumento das vendas de celulares. Sempre costumo dizer que nós não dependemos tanto de crédito. Ele é importante, mas a confiança do consumidor é fundamental para a economia. A partir do momento em que a pessoa sabe que terá emprego, ela volta a consumir. O brasileiro, no meu modo de ver, não analisa as taxas de juros. Se ele analisasse, o consumidor não comprava a prazo, porque no Brasil a taxa de juros é absurda.
Como é um setor muito sensível à variação cambial, pois as indústrias compram muitos insumos importados e vende produtos com alto valor agregado, qual o impacto que a volatilidade do dólar tem sobre as empresas e os preços?
Humberto Barbato: O setor convive relativamente bem, principalmente a área de eletrônica, com a queda da cotação do dólar em relação ao real. O produto desse segmento fica mais barato para o mercado interno. Embora o real valorizado prejudique enormemente as nossas exportações. Para se ter uma ideia, o papel das exportações no nosso faturamento, de 2002 para cá, que era de 22%, caiu para 12%. Percebe-se que desde o momento em que o câmbio começou a se valorizar, como está atualmente, nós fomos perdendo gradativamente espaço no mercado externo. Em relação ao dólar, a pior coisa que pode acontecer é a instabilidade. Quando o patamar da taxa de câmbio não é bem definido, as empresas ficam com uma enorme dificuldade de estabelecer os seus preços de venda para o mercado interno. Mesmo agora, com a alta do dólar, em menos de 45 dias a 60 dias não deve acontecer nada. As empresas pagam para não mexer em preços. Alterar os valores significa grande possibilidade de perder parcela de mercado.
Como o senhor sente o momento atual, no qual na mesma semana a indústria convive com um sobe-e-desce do dólar?
Humberto Barbato: Nós estamos exatamente do mesmo jeito que vivíamos quando começou a crise internacional, em setembro de 2008. Naquele momento, a cotação também começou a subir e as empresas não mexiam nos preços. Naquele instante, era difícil definir o preço do produto final para o consumidor. A situação é muito parecida agora. Neste momento, em função da variação cambial, as margens ficam mais prejudicadas. Mas as empresas esperam que, em pouco tempo, essa volatilidade diminua. Não acredito que em menos de 45 a 60 dias aconteça qualquer tipo de reflexo nos preços dos produtos.
Quais as ações que o Governo deve tomar para evitar que a variação de dólar provoque uma desindustrialização, como preveem muitos setores produtivos, em função dos custos mais baratos de importação de produtos acabados?
Humberto Barbato: Isso vem acontecendo muito no nosso setor. A área de utilidades domésticas tem sofrido um forte impacto do câmbio. A medida em que o Governo permite que a moeda se valorize muito, começa a inviabilizar a produção nacional. Isso é uma maneira que o Governo usa para controlar a inflação e se configura como uma medida muito simples para resolver apenas um problema. O índice de desindustrialização acaba sendo muito grande - e ela vem acontecendo de forma considerável. No nosso setor, o problema vem acontecendo em utilidades domésticas e materiais elétricos de instalação. A grande vantagem que o eletrônico tem com a atual taxa de câmbio tem repercussão negativa em outros produtos, nos quais o Brasil sempre foi um grande produtor e hoje perde mercado interno para importados de forma muito violenta. Se o Governo continuar com essa política de permitir que o câmbio se valorize, sem tomar outro tipo de iniciativa, vai promover uma grande perda de postos de trabalho.
Quais são as iniciativas que o Governo deve tomar?
Humberto Barbato: Eu acho que falta coragem para tomar medidas que não permitam investimentos no Brasil por período inferior a um ano, por exemplo. Afinal de contas, investimento especulativo não traz nenhuma vantagem para o País. Esses recursos só inflam os números da Bolsa de Valores. O mercado financeiro pode ganhar muito com o investimento especulativo, mas tirando esse segmento, a produção do Brasil não ganha nada com esse tipo de situação. O câmbio flutuante é uma vitória que o País tem. Mas para que ele seja verdadeiro, tem que flutuar em função dos fatores reais da economia e não com base na especulação financeira internacional. A medida que o Governo deveria tomar, por exemplo, é que o capital que entrar no País e sair em menos de um ano, tenha um imposto de renda absurdo. Um patamar elevado não permitiria que esse capital especulativo entrasse no País, como acontece hoje. Ações desse tipo permitiriam que o câmbio flutuasse de uma maneira verdadeira e não falsa, como vemos hoje.
A reforma tributária é um outro caminho para melhorar a competitividade das empresas brasileiras?
Humberto Barbato: Não só a reforma tributária, mas também a previdenciária. É fundamental que se modifique a situação de previdência no Brasil e seja efetuada uma reforma tributária. Essas medidas são necessárias para que o produto brasileiro não fique mais caro a cada dia. O Governo também transfere para nós parte da sua incompetência. Ele arrecada para executar determinadas ações que não realiza. E depois nós somos obrigados a fazê-las. Um exemplo é a questão do meio ambiente. É justo e normal que as empresas tenham responsabilidade por um produto eletroeletrônico que o consumidor deixou de usar. Mas o Governo também deveria cuidar para que esse produto seja reciclável. Ele tem uma participação nisso. Não é só a empresa que ganha com o produto. Eu ganho fabricando; você consumindo; e o Governo no recolhimento de impostos. Só que o Governo não faz a parte dele. Ele joga todos os encargos para a indústria. As reformas tributária e previdenciária são fundamentais. Nós precisaríamos ter coragem de tomar as medidas necessárias para o País. Há pouco tempo, eu falei na Câmara dos Deputados e fui vaiado violentamente, quando disse do absurdo que são as 40 horas semanais de trabalho. Isso vai aumentar o custo de produção. Os beneficiados não serão os trabalhadores, mas a classe política que usa isso como instrumento demagógico, principalmente em ano de eleição. No final, a medida vai gerar uma maior automação da indústria. Quanto mais caro o trabalhador fica, menos os empresários querem ter funcionários na sua fábrica. O grande problema que se vive no Brasil hoje é que o Governo é muito pesado e dá pouco em troca. Lamentavelmente, nós somos pouco exigentes na hora de cobrar o Governo.
Quando o senhor fala em Governo, isso se refere a todas as esferas (federal, estadual e municipal)?
Humberto Barbato: Eu falo em todas as esferas. A incompetência é generalizada em termos de Governo. Não faz nenhum sentido se aumentar alíquotas e impostos, pois os governos não cumprem os compromissos que eles têm com a sociedade. Se nós fôssemos um povo mais bravo, nós partíamos para uma desobediência civil.
O senhor acredita que este é o ano de cobrar dos políticos, pois é um ano eleitoral, e existe uma caça aos recursos e votos?
Humberto Barbato: É hora de cobrar compromissos daqueles que vão chegar ao poder. Temos que cobrar compromissos claros e objetivos do que eles pretendem fazer. Esta semana (semana passada), nós discutimos na CNI (Confederação Nacional da Indústria) a agenda estratégica para o setor nos próximos anos. Pretendemos apresentar tópicos relevantes para o setor industrial e que devem pautar os planos de governo dos candidatos. Nós queremos ver o nível de aderência dos candidatos ao projeto de Governo para o setor industrial. Acho que é nossa obrigação ter a sensibilidade de perceber, deixando de lado a simpatia por um dos candidatos, o quanto cada um deles se compromete com a agenda que nós definimos.
Quais são as expectativas do senhor para este ano?
Humberto Barbato: Não me lembro em que outra ocasião nós tivemos um início de ano com expectativas tão favoráveis quanto se tem para 2010. Conversando com os diretores da Abinee, todo mundo tem razões para estar otimista por motivos diferentes. A expectativa é muito positiva. O momento é muito favorável ao crescimento da indústria. Porém, há dificuldades no horizonte, principalmente com a concorrência internacional, que muitas vezes acontece em não-isonômicas. Mesmo assim, o ambiente é positivo.
(Fonte: Abinee - 07/02/2010)
Notícias relacionadas
Indústria eletroeletrônica ganha impulso com fábrica de chips Investimento do Governo tem objetivo de desenvolver indústria, atraindo novos fabricantes e gerando condições para consolidação da indústria microeletrônica avançada no País
Déficit de eletroeletrônicos supera previsão de empresários Para presidente da Abinee, resultados foram causados pela dependência que indústria brasileira de eletroeletrônicos tem de insumos importados. Previsão é de que déficit aumente em 2010
Abinee quer espaço para indústria nos investimentos do pré-sal Segundo executivo, setor de eletroeletrônicos pretende estabelecer o mesmo índice de 65% de conteúdo local para cada um dos sistemas, constituído pelo Prominp
Últimas notícias |