| | Em entrevista à PROTEC, o professor titular de farmacologia da UFSC João Batista Calixto antecipa os principais pontos de sua palestra no 2º ENIFarMed, dias 12 e 13, em São Paulo
Professor titular de Farmacologia da Universidade Federal de Santa Catarina, João Batista Calixto é também pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e membro da Academia Brasileira de Ciências. Com experiência na área de farmacologia geral, com ênfase em farmacologia da dor, inflamação e princípios ativos de plantas, desenvolve pesquisas em parceria com indústrias farmacêuticas nacionais e internacionais. Ao lado do professor Camille Georges Wermuth, da Faculdade de Farmácia da Universidade Louis Pasteur, proferirá a sessão plenária do 2º Encontro Nacional de Inovação em Fármacos e Medicamentos (ENIFarMed), nos dias 12 e 13 de novembro, em São Paulo. Em entrevista, Calixto adianta os principais pontos de sua apresentação.
PROTEC: O que o senhor discutirá em sua palestra?
João Batista Calixto: Eu vou basicamente abordar três pontos. Primeiro vou mostrar como ocorreu o desenvolvimento dos medicamentos após a Segunda Guerra Mundial. Depois abordarei as dificuldades atuais em desenvolver novos medicamentos, sobretudo os custos, os riscos. Apesar de os custos aumentarem, o número de novos medicamentos vem caindo. Isso se dá pela complexidade das doenças, pelo fato de os alvos terapêuticos não serem o que se imaginava. Vou caracterizar que apenas uns poucos países podem desenvolver medicamentos em toda a cadeia por causa dos altos custos e complexidade.
PROTEC: Qual será o outro foco da apresentação?
Calixto: O segundo ponto é o cenário nacional. O mercado consumidor brasileiro é o nono do mundo, mas apenas oito empresas brasileiras figuram entre as 25 maiores. E essas empresas vêm de uma tradição de ter muito pouca inovação. Isso se dá pelo processo em que elas foram criadas. Surgiram num momento em que o Brasil não reconhecia patente, as empresas viviam de cópia e nunca foi necessário desenvolver P&D. Esse cenário mudou quando veio a Lei de Patentes, em 1997. Elas não puderam mais copiar e tiveram que buscar alternativas. Uma alternativa foi a criação do mercado de genéricos. O terceiro ponto é que o Brasil depende largamente da importação, desde matéria-prima até produtos acabados. Isso é um quadro que leva a um déficit enorme na balança comercial de mais de US$ 4 bilhões. Esse fato tem gerado problemas para o Brasil, o que levou o Governo a criar uma política industrial para fármacos e medicamentos. Isso acontece porque não há base tecnológica nas empresas, que não têm ligação com as universidades. Por sua vez, as universidades e os centros de pesquisa não têm vocação e nem experiência em trabalhar com parceria e inovação tecnológica. Dentro desse quadro, o Governo cria a política industrial e passa a fortalecer politicamente o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Lei do Bem, para criar um ambiente que pudesse unir academia e empresas, para criar inovação e tecnologia. Há recursos, mas o sistema continua estrangulado porque é altamente regulado por causa de leis contraditórias. O excesso de regulamentação de leis do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), cria uma insegurança jurídica.
PROTEC: Quais seriam os caminhos?
Calixto: Vou concluir com algumas sugestões. A idéia é mostrar em que áreas o Brasil ainda tem chances de competir em fármacos. Certamente não é competindo com as multinacionais na área de pesquisa de ponta por causa de dinheiro, tempo e experiência. Há nichos nesses mercados. Só tem dois caminhos. Ou a empresa monta institutos de pesquisa, o que é muito difícil, ou conta com as universidades. Mesmo as grandes empresas brasileiras não têm dinheiro para ter centros de P&D. O dinheiro que elas têm não é suficiente para a descoberta de uma nova droga. A gente não tem no Brasil flexibilidade, expertise, velocidade, para acompanhar o desenvolvimento de um medicamento. Mas o que se pode fazer é pegar nichos: me toos, fitoterápicos. Há competência científica, há bons laboratórios, mas que estão afastados das empresas.
PROTEC: Vale mais a pena, em termos práticos, no Brasil, buscar a inovação radical ou desenvolver cópias criativas (me-too) ou melhoradas (me-better)? Qual deveria ser a estratégia brasileira, nesse momento atual?
Calixto: A estratégia nunca é buscar a inovação radical. Se você monta um time de futebol e quer jogar logo na primeira divisão, pode até jogar, mas vai perder todas as partidas. O primeiro passo é situar onde a competência permite resultado positivo: ou seja, jogar para ganhar. Como me-too, me-better, rejuvenescimento de drogas, inovação incremental.
PROTEC: Qual sua avaliação sobre o Complexo Industrial da Saúde, a linha Profarma?
Calixto: O Profarma é a coisa mais importante que aconteceu nos últimos tempos. Tem muito industrial que acha que é burocratizado, mas parece que está sendo flexibilizado. A indústria e o pesquisador têm que trabalhar onde se pode chegar a um produto. Não adianta querer radicalizar e não chegar a lugar algum. É quase um consenso de que há competência e recursos, mas isso não é suficiente. Mais importante do que isso são política e leis claras, com poder de compra do Estado. É um conjunto de fatores que vai propiciar a inovação. Temos chance porque há matéria-prima, biodiversidade, pessoal qualificado, e agora, dinheiro. O problema é se o Governo fará isso de maneira coordenada.
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(Fonte: Notícias Protec - 04/11/2008)
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