MPEs buscam parceiros para captação de recursos que permitam o fomento de projetos inovadores. Empresário do setor de energia afirma que há dinheiro para inovar, mas faltam projetos
A inovação não é privilégio das empresas de grande porte. Segundo especialistas em pesquisa e desenvolvimento, é possível encontrar produtos inovadores em organizações com estruturas menores e poucos funcionários. Na maior parte dos casos, para ter sucesso nesse setor, os pequenos negócios percorrem dois caminhos: captam recursos de parceiros ou agências de fomento para tirar boas idéias do papel e se associam a outras companhias para sobreviver no mercado e trocar experiências de produção. Este mês, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) lançou uma linha de financiamento de R$ 450 milhões para pequenas, médias e grandes empresas que investem em inovação.
A boa notícia é que os novos financiamentos da Finep são não-reembolsáveis - as companhias selecionadas pela agência não precisam devolver o recurso recebido. É o terceiro edital de subvenção lançado pela financiadora. Já foram disponibilizados R$ 588 milhões, que beneficiaram mais de 300 projetos. Segundo o novo edital, 40% dos recursos são para as pequenas empresas e 30% do total da verba será destinado a empreendedores das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Hoje, além da Finep, a maioria das organizações que se aventura em projetos inovadores conta com o apoio financeiro de entidades como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e de fundações estaduais de amparo à pesquisa.
"Não falta dinheiro para a inovação, faltam projetos", diz Pedro Jatobá, presidente da Associação de Empresas Proprietárias de Infra-Estrutura e de Sistemas Privados de Telecomunicações (Aptel), que reúne companhias como Furnas e Eletrobrás. Para Jatobá, o investimento em pesquisa no Brasil ainda é pequeno e mal distribuído. "No setor de energia há dinheiro sobrando, mas faltam idéias", afirma.
Segundo o presidente da Aptel, o segmento energético reserva 1% da receita operacional bruta para projetos de pesquisa - e nem sempre esse valor é totalmente aproveitado. Para ele, é necessário que o Brasil monte uma política pública que incentive a inovação. "Países como a Coréia investiram em programas de capacitação tecnológica a médio e longo prazos e já colhem frutos dessa iniciativa", disse.
Em 1981, as empresas sul-coreanas contavam com apenas 53 centros de pesquisa e desenvolvimento. Em 2006, esse número saltou para 12 mil. Já o setor privado emprega mais de 60% dos pesquisadores do país. No Brasil, menos de 10% dos cientistas batem cartão na área corporativa.
O modelo coreano de inovação prevê financiamentos não-reembolsáveis do governo para a indústria e uma bateria de isenção de impostos: leis tributárias determinam que de 3% a 5% das vendas de produtos e serviços devem ser destinados ao desenvolvimento de recursos humanos qualificados.
Para Martín Izarra, presidente da Brapenta, fabricante de detectores de metais e controladores de peso para a indústria alimentícia, a maior dificuldade dos negócios inovadores no Brasil ainda é obter recursos financeiros para levar seus projetos adiante. "O empreendedor não está preparado para dialogar com instituições de fomento ou apresentar projetos bem estruturados, com um plano de negócios adequado", afirma.
Para driblar esses problemas, os empresários têm optado por formatar companhias dentro de centros de pesquisas ou incubadoras. O Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec), que funciona dentro da Universidade de São Paulo (USP), ajuda as empresas a entender melhor os mecanismos de apoio, como a Lei de Inovação, os editais publicados pela Finep e os incentivos concedidos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Para Sérgio Risola, gestor do Cietec desde a sua criação, há dez anos, o futuro das incubadoras está baseado nas redes de cooperação. "Essas redes fazem com que as empresas realizem ações conjuntas, o que fortalece o trabalho das companhias no mercado e dá visibilidade aos produtos", disse.
No ano passado, as mais de 100 incubadas no Cietec geraram um faturamento de mais de R$ 30 milhões, além de 780 postos de trabalho. Foram registradas sete patentes e protocolados 13 pedidos de marcas. Graças à localização dentro da USP, as companhias têm acesso a laboratórios como o do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares(Ipen) e o do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado São Paulo (IPT).
Foi nos corredores do Cietec que surgiram produtos como a cola Prego Líquido, a primeira sem substâncias tóxicas do mercado, criada pela Adespec; um telefone para surdos, feito pela Koller, e um aquecedor solar de baixo custo, fabricado pela Sociedade do Sol.
Outra tendência apontada por Risola entre as empresas inovadoras é a concentração em parques tecnológicos. Segundo a Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec), o Brasil tem mais de 40 projetos de parques em desenvolvimento. Nos últimos 20 anos, foram aplicados cerca de R$ 150 milhões em incubadoras e complexos tecnológicos, com recursos do governo ou da iniciativa privada.
"Na Índia e na China, as incubadoras com mais de dez anos de idade já constituem parques de tecnologia. Hoje, existem cerca de 340 unidades no mundo que apóiam o empreendedorismo das novas empresas", salienta Risola.
(Fonte: Valor Econômico - 30/05/2008)
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