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JORNAL DO COMÉRCIO - RJ
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| Veículo: Jornal do Commércio - RJ |
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| Seção: Opinião |
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| Data: 09/08/2006 |
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| Estado: RJ |
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| Hora: 08:43:34 |
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Imitando é que se aprende |
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Roberto Nicolsky
Físico, professor da UFRJ e diretor da Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica (Protec)
Todos nós temos, entre as lembranças da infância, imagens bem vivas de como aprendemos as coisas. São momentos mágicos, de descoberta e sentimento de conquista. Copiando no caderno palavras rabiscadas no quadro da escola ou impressas na cartilha, aprendemos a ler e a escrever. Desmontando e montando brinquedos repetidamente, aprendemos a fazer outros iguais e até melhores, ensaiando o uso da nossa criatividade. Consagrada pela pedagogia de todos os tempos, esta forma de absorção de conhecimento é a base do conceito de inovação tecnológica.
Quando falamos em inovação, o que nos vem à cabeça geralmente é a novidade absoluta, revolucionária, como a invenção do computador ou do telefone celular. Esta é a inovação radical, que configura uma quebra de paradigma tecnológico. Mas não é menos importante a inovação incremental, fruto da atividade paciente e exaustiva de tentarmos melhorar aquilo que já existe. É desta que se trata quando, para queimar etapas e nos posicionar adequadamente num determinado mercado, descartamos a possibilidade de "reinventar a roda" e partimos para criar variações de produtos existentes. É essa inovação modesta que está em jogo também quando, para se equipar com uma tecnologia cara ou indisponível, uma indústria pratica a chamada "engenharia reversa", desmontando equipamentos para reconstruí-los criativamente, com materiais e ferramentas mais acessíveis.
A Suíça, país respeitado pela sofisticação tecnológica de sua indústria e hoje o maior beneficiário per capita de direitos de propriedade industrial, postergou durante décadas a adoção de um sistema de patentes para copiar tecnologias alemãs e inglesas, especialmente na área farmacêutica. O Japão, famoso por ter reerguido sua economia, após a 2ª Guerra Mundial, com ênfase na imitação de produtos europeus e norte-americanos, desenvolveu posteriormente uma imbatível política de inovação baseada na miniaturização de aparelhos. Para ficarmos com um exemplo mais recente, basta lembrar Taiwan, que inova incessantemente na área de componentes e semicondutores microeletrônicos, o que lhe rende anualmente US$ 150 bilhões em exportações e 5 mil novos registros de patentes. Na verdade, todos os países emergentes asiáticos adotam a estratégia da imitação criativa, por entenderem que suas indústrias se beneficiam mais emulando as dos países desenvolvidos.
O Brasil ainda tem posições confusas nessa área: queremos estar na ponta do conhecimento científico - e nossas universidades realmente brilham em algumas áreas da ciência contemporânea - mas nossa indústria ainda está assimilando tecnologias ultrapassadas. Isto porque, ao contrário de todos os países citados, cultivamos o mito de que ciência se transforma naturalmente em tecnologia, bastando para isso integrar universidades e empresas. Nada mais equivocado: enquanto a universidade atende às demandas do conhecimento, do saber, a empresa atende às demandas do mercado. Nem toda descoberta científica se transforma em tecnologia, assim como nem toda inovação tecnológica, sobretudo a incremental, provém de conhecimentos de ponta.
Apesar do equívoco brasileiro de colocar ciência e tecnologia no mesmo saco de políticas públicas, sob a conhecida sigla C&T, o conceito da inovação incremental baseada na indústria vem se disseminando e já faz parte, por exemplo, da cultura do BNDES, que criou uma linha de financiamento específica para projetos com esse enfoque: o Inovação Produção. A mais importante instituição brasileira de fomento ao desenvolvimento industrial já entendeu que não adianta sonharmos com estrelas enquanto enveredamos por um atoleiro - PIB crescendo abaixo da média mundial e produtividade industrial decrescente.
A inovação incremental se faz em chão de fábrica, a partir do trabalho sobre o que já existe, poupando tempo e recursos escassos. Surge para resolver problemas práticos, como baratear ou acelerar um processo industrial, produzir com maior eficiência ou rentabilidade, adaptar um produto a novas necessidades e desejos do consumidor. Em resumo, competir melhor. A Embraer, por exemplo, quando projetou o bem sucedido avião ERJ-145, obteve uma economia de peso de 70 kg por conta do redesenho de um rebite de alumínio. Isto representa um passageiro a mais ou consumo de combustível a menos, o que na aviação é crucial. Um exemplo mais próximo do cidadão comum: os fabricantes de telefones celulares, que não param de melhorar o design dos aparelhos visando ampliar suas funções e liberar as mãos do usuário, são imitadores criativos do seu inventor original, que praticamente foi alijado do mercado.
A cópia inovadora, no atual sistema patentário internacional, pode e deve ser convertida em ativo empresarial, sob forma de patentes dependentes ou modelos de utilidade. É fundamental não confundi-la com a pirataria e a falsificação, que se situam não no campo das patentes, mas no das marcas e do direito autoral, e que consistem basicamente em reproduções mecânicas ou eletrônicas não autorizadas.
O conhecimento puro não é patenteável, mas sim o produto ou a tecnologia que nele se apóia. Por isso, cada tentativa de imitação de um produto ou processo dá origem, naturalmente, a uma cópia criativa. Faz parte da índole do ser humano a liberdade de criar vendo e fazendo, quebrar a cabeça para realizar melhor aquilo que outros fizeram antes. Este é o mais genuíno e talvez um dos mais potentes motores da produtividade e do desenvolvimento de um país. E que anseia por um estímulo mais ousado no Brasil, para crescermos acima da média mundial e criarmos empregos qualificados. |
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